Zelensky em Bruxelas para "preparar" os tempos de paz

Zelensky em Bruxelas para "preparar" os tempos de paz

O Presidente Ucraniano foi a Bruxelas para repetir o apelo, quase em jeito de aviso, de que a União Europeia deve estar pronta para o caso de a guerra na Ucrânia entrar em fase de negociações.

Andrea Neves, RTP Antena 1, Bruxelas /
Foto: Laia Ros - Reuters

A União Europeia deve estar pronta para o caso de a guerra na Ucrânia entrar em fase de negociações. Volodymyr Zelensky já tinha deixado este apelo na Cimeira informal em Nicósia, que marcou a presidência cipriota do Conselho da União Europeia, e foi agora reforçá-lo a Bruxelas.

Um novo contexto, com uma Ucrânia que já não é vista como estando numa posição de extrema fraqueza – Kiev consegui aguentar a invasão russa apesar do corte do apoio dos Estados Unidos, consolidando uma posição de inovação e de avanços tecnológicos nas indústrias de defesa do país (a Ucrânia é já considerada um parceiro estratégico na defesa e segurança da Europa) – e uma Rússia mais fragilizada, pode surgir uma oportunidade para negociações entre as duas partes.

A União Europeia sempre disse que aceitaria a paz que os ucranianos aceitassem, mas a questão que ainda não tem resposta é a que se refere a qual vai ser a posição da UE se essas negociações avançarem.

Os 27 não são neutros – sobretudo depois de o governo na Hungria ter mudado (Budapeste não será o maior apoiante da Ucrânia, mas já não se opõe ou veta decisões que se traduzam num apoio a Kiev) – e é preciso admitir que não terão uma posição de negociadores como bloco.



Mas o que falta definir é que tipo de papel vai a União desempenhar se essas negociações começarem (entre Ucrânia e Rússia) o que está longe de estar decidido.

Luís Montenegro admite que ainda não existe uma posição fechada sobre este assunto: “O processo de paz pressupõe que estejam na mesa os dois intervenientes do conflito: a Ucrânia e a Rússia. E também pressupõe, a bem do projeto comum de todos nós, que a Europa possa ter um papel predominante”.

O Primeiro-ministro recorda que “tive ocasião, já há algum tempo, de ser dos primeiros a veicular a minha posição, segundo a qual a Europa não tem de ter nenhum receio em ser uma parte ativa do processo de paz para que as suas ideias possam estar afirmadas e não estarmos dependentes de intervenções de terceiros para, no fundo, afirmar aquele que é também o nosso interesse estratégico e a participação da Europa”.

Mas sobre a forma exata de o fazer os 27 ainda não têm uma solução. Luís Montenegro também não.

Eu não tenho uma posição fechada quanto à fórmula ou a metodologia mais adequada. O que posso é, mais uma vez, manifestar a minha convicção de que nós prestaremos um bom serviço à Ucrânia e à Europa, se a União Europeia tiver um papel mais ativo e proativo a aproximar as partes. Essa é a minha expectativa”.

Mas sobre nomes que possam ser adequados para a mediação entre as partes, O Primeiro-ministro refere que “não vou entrar num concurso para podermos agora escolher ou propor nomes para poderem protagonizar esse processo. O que posso dizer - também não tenho nenhum problema em afirmá-lo – é que há algumas personalidades, nomeadamente portuguesas, que fariam esse papel muito bem. É a minha convicção”.

Adesão da Ucrânia à União Europeia

A chegada ao Conselho Europeu fez-se com os 3 presidentes juntos.

António Costa, o Presidente do Conselho Europeu, realçou que “esta foi uma semana histórica para a Ucrânia. Na segunda-feira, abrimos formalmente as negociações do primeiro grupo. Este é um passo muito importante no sentido do alargamento da União Europeia e da plena adesão da Ucrânia à União Europeia. E no G7, chegámos a uma declaração conjunta com o apoio claro e firme de todos os membros do G7 à Ucrânia. Isto significa que temos agora os 27 Estados-membros unidos no apoio à Ucrânia”.

António Costa referiu ainda que “é também muito importante destacar que agora a União Europeia, os Estados Unidos e os nossos parceiros do Canadá, Japão e Reino Unido, estão todos a trabalhar em conjunto para continuar a apoiar a Ucrânia. E é por isso que, no G7, decidimos aumentar a pressão sobre a Rússia, de forma a reduzir a sua capacidade de prosseguir a guerra contra a Ucrânia. E, assim, damos um novo impulso ao nosso caminho rumo a uma paz justa e duradoura na Ucrânia”.

A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reforçou que também se queria juntar aos que felicitam a Ucrânia pela abertura do primeiro cluster.

“Este é um grande passo em frente. Parabéns. E vocês merecem, porque têm trabalhado muito para avançar e realizar as reformas necessárias. Esperamos que, durante o verão, possamos abrir mais clusters. Isto é muito importante, porque quando a Ucrânia cumpre as suas metas, nós também temos de as cumprir”.

Von der Leyen acredita que se “vive uma momento especial”.

“Tenho a impressão de que a maré está a virar. Vemos que a Ucrânia está a manter a posição, inclusive a recuperar território parcialmente, e que a Ucrânia está a viver um momento muito forte. Além disso, estamos a trabalhar, juntamente com os nossos Estados-membros, num muro antidrones para os nossos países da linha da frente. Isto mostra o quanto a Ucrânia já está integrada no trabalho da União Europeia e a avançar”.

“E isto numa altura em que enviámos uma mensagem muito forte também à Rússia, de que concederemos à Ucrânia um empréstimo de 90 mil milhões de euros para os próximos dois anos. Portanto, também para transmitir uma mensagem muito forte de que estaremos ao seu lado durante o tempo que for necessário”.

A Presidente da Comissão Europeia refere que “a Rússia, por outro lado, tem a economia em crise”.

“O facto de a Rússia ter bloqueado a internet é um grande problema: o Telegram, por exemplo. fala por si, pois a Rússia está a erguer novamente uma cortina de ferro. Mas agora é uma cortina de ferro digital para o seu povo”.

Volodymyr Zelensky agradeceu.

“Este é realmente um grande momento para a Ucrânia. O primeiro cluster foi aberto. Obrigada a todos os dirigentes pela unanimidade. Além disso, tivemos também unanimidade durante o G7 sobre como ser fortes e como pressionar Putin para o diálogo, para o cessar-fogo, para pôr fim a esta guerra”.

O Presidente Ucraniano tinha estado antes na NATO para a reunião do grupo de contacto.

Mark Rutte, o Secretário-geral da NATO elogiou a capacidade da Ucrânia resistir.

“O que estamos a ver neste momento é que a Ucrânia está a manter a linha da frente. Não diria que estão a recuperar muito território. Há alguns ganhos líquidos, mas isso é bom”.

“É diferente de, digamos, há 4 ou 5 meses, mas pelo menos podemos dizer que, no geral, há mais ou menos uma espécie de congelamento da linha da frente, pequenos ganhos para os ucranianos e um sucesso cada vez maior naquilo que a Ucrânia está a fazer com os seus drones e as tácitas que estão a utilizar para garantir a degradação das infraestruturas energéticas na Rússia, tentando, claro, também atingir a capacidade da Rússia de produzir novas armas, etc.” disse Rutte.

“O que estamos a ver é entre 30 e 35 mil russos mortos a cada mês. E estes são números realmente impressionantes”.

O Secretário-geral da Aliança reforçou que “Steve Wyckoff, Jared Kushner e Marco Rubio estão todos a trabalhar arduamente para que este processo de paz avance. Quero realmente agradecer-lhes por isso. Foi o presidente Trump quem quebrou o impasse com Putin em fevereiro do ano passado, através de um diálogo direto. Acho que isso também foi crucial, porque ele era o único que o conseguia fazer”.

“Mas, no final de contas, a questão é se Putin quer mesmo participar nas negociações. E, entretanto, temos de fazer tudo para garantir que a Ucrânia se mantém o mais forte possível na luta. É nisso que estamos a trabalhar. Mas não podemos ser ingénuos em relação à Rússia. A Rússia não é maior do que a Bélgica e os Países Baixos juntos. E eles sabem que somos membros sérios da NATO e sabem que não nos podem vencer. Por isso, faremos de tudo para garantir que eles entendem que será o seu maior erro se tentarem”.
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